viagem à maior aldeia flutuante do mundo!

O Brunei é um país pequeno e um Estado soberano que fica na costa norte da ilha do Bornéu, no Sudeste Asiático. É um pequeno país muçulmano onde os sonhos são realizados com o dinheiro proveniente do petróleo. Isto era tudo o que sabíamos e, obviamente, não era suficiente para por o Brunei no nosso itinerário. No entanto, como estávamos ali tão perto, em Kota Kinabalu, resolvemos aproveitar a oportunidade. Foi o “agora ou nunca” que nos levou a visitar este país.

Embarcamos no cais Jesselton Point, em Kota Kinabalu, primeiro para Labuan, uma pequena ilha no meio do oceano onde acabamos por pernoitar no único quarto disponível que encontramos em toda a ilha. Mais cedo do que tarde descobrimos que foi arriscado não termos feito reserva! Estava tudo esgotado, até as lojas estavam apinhadas! vorazes consumidores alinhavam-se junto às caixas registadoras para comprar os produtos isentos de impostos, como tabaco, álcool  e chocolates! Estávamos, portanto, numa espécie de Meca onde os fiéis compradores vêm religiosamente consumir. No dia seguinte, bem cedo, apanhamos outro barco com destino ao Brunei. Mar adentro, o céu é uma superfície plana e azul, o horizonte de água à nossa frente também parece plano e azul e, no meio destes dois mundos, a nossa embarcação avança. Para além do azul só o raro pontilhado de algodão branco de algumas nuvens e as plataformas petrolíferas que ao largo pairam sobre a água. Aparecem e desaparecem como se fossem uma miragem que revela, claramente, de onde vem a riqueza do sultão do Brunei, uma das maiores fortunas do planeta, vem do fundo do mar!

Do porto marítimo para a capital, Bandar Seri Begawan, apanhamos um velho autocarro! O motorista pachorrento cobra os bilhetes, a nós, a mais dois turistas, curiosamente também Portugueses e a mais dois ou três passageiros locais. Depois, arranca tentando fechar a porta… esta luta barulhenta durou a viagem toda e terminou com uma vitória folgada a favor da porta! Um dos países mais ricos do mundo tem transportes públicos anacrónicos, achamos estranho! Mas, mais tarde percebemos porquê… a gasolina é muito barata, o país é pequeno e quase todos têm carro próprio.

Fomos visitar o Museu Real, com o casal de portugueses que tínhamos acabado de conhecer. Descalços e com os pés na requintada alcatifa percorremos as galerias que expõem os presentes oferecidos por outros sultões, réis, presidentes, governadores, imperadores e amigos. Saímos de lá com um postal e com uma pergunta: quê presente oferecer a quem já tem tudo? Bem… se lhe oferecerem mais ouro ou jóias, em princípio, ele não deve levar a mal!

Ao amanhecer, subimos de barco o rio para vermos os macacos-narigudos. Contudo, chegamos tarde! Os narigudos aparecem na margem do rio muito cedo para comer. Depois, escondem-se de pança cheia. São animais muito tímidos e cautelosos. Desistimos de os procurar… O barqueiro puxa de um cigarro e diz: – “este é proveniente do contrabando. É proibido fumar e beber álcool no Brunei publicamente, por isso, temos de o fazer em privado, à porta fechada.” Depois, com o barco a boiar no meio do rio, o homem reclina-se para trás e respira lentamente o fruto proibido. É um momento separado da sociedade, aqui é fora do mundo. Ficamos em silêncio cercados pela beleza da floresta tropical. O tempo parecia parado mas o cigarro ardeu até ao fim e, como se fosse uma ampulheta a marcar o tempo, indicou que era tempo para regressar.

O barqueiro deixou-nos na aldeia flutuante, a maior aldeia sobre a água do mundo. Entramos no museu, depois, percorremos a frágil e intrincada rede de passadiços sobre as tábuas carcomidas pelo tempo. Vimos gatos em gaiolas, repito gatos domésticos em gaiolas! Ao entardecer, no cais, descansamos o nosso olhar nas águas calmas do rio mas não esperamos muito porque aqui os barco-taxistas topam-nos muito antes de nós os vermos!

O sol estava bravo e a Ana não se estava a sentir muito bem, por isso, fomos à farmácia comprar paracetamol. Bem, o plano parecia simples… mas não foi. Primeiro é preciso mostrar o passaporte e preencher extensos formulários, depois, assinar um termo de responsabilidade e, finalmente, a farmacêutica liga para um médico, transmite os sintomas da Ana e espera pela  decisão do médico… Neste caso a venda foi autorizada mesmo antes de a dor de cabeça passar…

Ainda não tínhamos comido bem no Brunei, até que, descobrimos o mercado nocturno em Gadang, não muito longe do centro de Bandar Seri Begawan. Não escolhemos nenhuma banca, fomos apenas provando de tudo! Aqui todas as apostas são vencedoras. O lume das botijas de gás aquece frigideiras enormes, como se aquecesse a própria noite, como se aquele ar espesso e perfumado fosse misturado com as iguarias que eram mexidas e remexidas nas quentes chapas de metal. Em vez de buffets e restaurantes, encontramos comida caseira, à moda do Brunei, feita por habitantes locais. Os legumes, os frutos e os doces têm cores tão vivas, tão reais que parecem irreais…

Ficamos a comer até tarde, aliás, demasiado tarde, de maneiras que perdemos o último autocarro! A capital deste país recolhesse às dez da noite para dormir! Fomos a pé, sem saber o caminho! Orientámo-nos, apenas, por dois pontos de referencia, as mesquitas Jame´s Asr Hassanil Bolkiah e a Sultan Omar Ali Saifuddin, cada uma com quase 30 domos que à noite brilham como se fossem estrelas num céu escuro como breu! A caminhada nem estava a correr mal, até que, inesperadamente, recebemos uma mensagem dos portugueses que tínhamos conhecido e que entretanto tinham viajado para Kuchin. Cidade que eu e a Ana visitamos de mota no início da nossa viagem, por isso, tínhamos dado algumas dicas… os transportes não são muito frequentes para alguns sítios, nem sempre são pontuais e confiáveis, portanto, alugar uma mota foi-nos muito útil, deu-nos mais liberdade e permitiu-nos ir a todo lado. Foi uma boa aposta, contudo, não aconselhamos este meio de transporte a ninguém porque da última vez que o tínhamos feito a pessoa em causa, sofreu um acidente e nós sentimo-nos, de certa forma, culpados. Mas, ao que parece, apesar dos avisos, a história repetia-se! Recebemos uma foto no telemóvel com um tornozelo coberto com ligaduras. Infelizmente, também tinham tido um acidente. Embora, ao que parece, nada de grave…

No dia seguinte fomos ao parque natural que proporciona longas caminhadas entre vegetação cerrada, sombra e silêncio… Existe uma torre no topo da montanha que, imaginamos nós, deve oferecer uma visão muito interessante do parque e da cidade se não estivesse encerrada! Já no fim da caminhada, à saída do parque, ouvimos barulhos que pareciam ser de crianças a chapinhar na água de um riacho! Fomos espreitar e vimos macacos a saltarem das árvores para a água como se fossem mergulhadores! Subitamente e, mais uma vez, os macacos bárbaros e intolerantes não mostraram interesse nenhum em partilhar a água fresca connosco e desatam a correr atrás de mim com os dentes de fora… Eu de dentes não percebo nada, portanto,  civilizadamente batemos em retirada para a cidade para que os primatas pudessem continuar com a diversão selvagem.

Uma vez que não nos deixaram banhar fomos visitar o museu. Mas, de repente, mais uma surpresa, estava fechado! Cansados, decidimos voltar à boleia. Não tardou nada até estarmos num carro com duas muçulmanas muito simpáticas, mas também muito constrangidas, como se estivessem a viver uma grande aventura, a fazer algo muito ousado ou a desafiar algum sistema! Pareciam ser pessoas muito educadas e interessantes. Na despedida, os olhos que o hijab ou o véu islâmico  não cobrem dizem-nos que estão muito felizes por nos terem ajudado e conhecido mas ao mesmo tempo parecem aliviadas porque o risco ou a imprudência de meter dois estranhos no banco de trás tinha terminado da melhor maneira!

No dia da nossa partida, ao nascer do sol, chegamos à estação dos autocarros e fomos abordados por dois indivíduos, de género indefinido, visivelmente intoxicados, talvez pelo álcool sem impostos de Labuan ou pela nuvem de hidrocarbonetos que paira sob a central dos autocarros! Nisto começam a deambular e, primeiro pedem desculpa a Ana para depois me assediarem! Lançam-me beijinhos, elogios, sorrisos e acenam-me… – Isto realmente com pessoas educadas é outra coisa, – disse a Ana. Ficamos boquiabertos! Num país onde a homossexualidade é tratada com a pena de morte, o consumo público de álcool dá direito a cadeia e a castigos corporais estes tipos ou são turistas muito incautos ou andam à procura de problemas… Apesar de tudo, educadamente acenamos um adeus e esperamos que não descubram, da pior maneira, que o código penal da Sharia foi introduzido neste país em 2014.

 

Anúncios

One Comment Add yours

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s