Do café branco de Ipoh às plantações de chá nas Cameron Highlands

Em Ipoh dispensamos um olhar intimo à rua velha, namoramos as montras e as coloridas lojas na “pequena índia” e, também a pé, fomos contemplando mural a mural, onde cada parede conta um paragrafo e cada rua que atravessamos é uma página na história desta cidade.

Ao passarmos pelo restaurante Nam Heong fomos convidados a entrar! Ofereceram-nos imediatamente uma mesa que desencantaram milagrosamente… o espaço estava a abarrotar de gente! Bebemos a mais famosa bebida de Ipoh, o café branco. Há algo de inegavelmente sedutor neste café para além da cor atípica… de textura aveludada, com sugestão de cheiro a carvão vegetal e um sabor inesquecivelmente doce, a nós, soube-nos pela vida. Pedimos com gelo porque estávamos a arfar de calor e pedimos outro para levar connosco num saco de plástico e com palhinha que é como os locais bebem ☕️!

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Pegamos novamente no mapa da cidade e no nosso guia, mas, a nossa capacidade de orientação é tão boa que acabamos com fome, principalmente a Ana que tem um estômago roncante, dentro de uma garagem de um senhor malaio a perguntar por um restaurante vegano! O senhor não se limitou a dar indicações, agarrou no carro e levou-nos  ao restaurante chinês Yun Ji na zona a sul do rio que separa a cidade. Comemos muito e bem 🍲.

Depois, na paragem dos autocarros um idoso intrigado pergunta: – para onde vão?

-Para a central dos autocarros, disse a Ana.

-Não é aqui é ali, naquela paragem… mas o autocarro não é direto, têm de trocar para outro a meio do percurso…

O ancião, de feições chinesas, seguiu-nos e, surpreendentemente, entrou no mesmo autocarro que nós! Para nosso espanto, sentou-se no banco de trás. Após algumas paragens, subitamente, fez-nos sinal para sairmos, depois aponta para um autocarro parado e diz-nos: apanhem aquele. Da janela do nosso novo autocarro ainda vimos um sorriso enrugado e simpático a partir na direção oposta de regresso à cidade! O velhote parecia feliz por nos ter ajudado! Retribuímos o sorriso e também acenamos.

Das planícies quentes de Ipoh até às montanhas verdes e frescas das Cameron Highlands foi uma viagem vertiginosa encosta a cima. Chovia copiosamente e o autocarro cautelosamente ia serpenteando a estrada sinuosa com curvas e contracurvas. Os acidentes sucediam-se em catadupa! A imagem dos carros despistados e o ar frio da montanha trespassavam os vidros molhados! O ambiente gelado e silencioso só foi interrompido porque o ziguezaguear do autocarro aborreceu os estômagos mais sensíveis! Crianças agoniadas e enjoadas no banco da frente e do lado vomitaram de desespero. Algumas famílias do Nepal fazem esta viagem regularmente… trabalham nas plantações do chá! É longa e dura a viagem para eles, principalmente para os mais novos! Assim que chegamos às Cameron Highlands somos brindados com paisagens idílicas, colinas verdes que parecem coloridas no Photoshop, algumas salpicadas com morangos vermelhos, outras com flores, muitas flores com cores exuberantes e um intenso cheiro a terra molhada. Foi como se estivéssemos a correr a maratona e nos entregassem a medalha antes de cruzarmos a linha de chegada! Saímos na ultima paragem, na pequena vila de Taman Rata.

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É difícil alugar uma mota. Nós não conseguimos! Restavam duas opções, o táxi ou embarcar numa das várias excursões para turistas. Ponderamos as duas cautelosamente por 2 segundos e inventamos uma terceira… fomos a pé e à boleia. Com a brisa fresca e depois de um saboroso pequeno-almoço indiano fomos visitar a Boh Tea Plantation, apanhamos boleia de um casal, casados de fresco, que desconhecíamos e quando chegamos à plantação éramos praticamente amigos! bebemos um chá na cafetaria (perdão, na chafetaria!) da fazenda que oferece uma vista panorâmica das encostas esverdeadas que se perdem num perpétuo horizonte. Agarramos na maquina fotográfica e fomos caçar memorias. Eu ia caçando também uma cobra 🐍que quase trepei sem querer e a Ana ia pescando uma rã porque, teoricamente, queria saltar por cima de um riacho mas na prática aterrou no meio da água, por sorte 🍀, nem estava muito fria; disse ela, a mim, não me apeteceu experimentar!  À tarde, com o tempo encoberto, fomos visitar a Bharat Tea Plantation.  Desta vez, quem parou para nos dar boleia foi um senhor maliano, filho de emigrantes indianos, muito simpático e com muitas histórias para contar… As encostas íngremes, cobertas pela planta do chá, castigam as pernas dos viajantes mais experientes mas também presenteiam os mais teimosos com momentos de rara beleza! Trabalhadores, dispersos naquele imenso mar verde, retiram as ervas daninhas e colhem as folhas maduras para dentro de um saco que carregam às costas. O mesmo saco que eu tentei levantar e não fui capaz sequer de o mexer 😤!

Nessa noite, jantamos num dos vários restaurantes que ladeiam a rua principal da pequena vila de Tanah Rata. Quando nos serviram o chá, o cheiro a ervas quentes acordou em nós as memorias colhidas durante o dia e, ali sentados à mesa, voltamos a viajar pelas deslumbrantes mas trabalhosas plantações. E ao apreciar o chá apreciamos também as pessoas incríveis que estão por trás deste ritual milenar. Ao saborearmos aquele liquido aromatizado somos também invadidos por novas experiências que alargam e nutrem a paleta da nossa consciência. O comercio justo ganha, assim, ainda mais significado para nós…

Só não fizemos nenhum trilho pedestre porque ouvimos dizer que andavam a assaltar pessoas e a misse que viajava comigo como é mais prudente do que eu, achou, e bem, que não valia a pena arriscar! Fica para a próxima 😉…

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2 Comments Add yours

  1. Jauch diz:

    O passeio certamente valeu a pena e a descrição foi agradável de ler. Gostei sobremaneira das gentilezas que vos foram oferecidas pelos locais. Obrigado 🙂

    Liked by 1 person

    1. adlribas diz:

      Sim, gostamos muito de tudo, principalmente das pessoas… Obrigado pelo teu tempo 😉

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