Moçambique de lés a lés (2ª parte)

Da Ilha de Moçambique viajamos  de “chapa” (uma espécie de carrinha de 9 lugares 🚎) para Nampula. São ainda visíveis as feridas da guerra. A estrada, roída pelas minas, ainda não se recompôs. Carcaças enferrujadas e queimadas confirmam a história turbulenta!

A chapa partiu com lotação esgotada, ainda assim, estrada fora, vão entrando mais pessoas que carregam consigo coisas para venderem na cidade da Beira! No banco de trás as galinhas cacarejam asfixiadas pelo calor; à frente, eu tento não fazer polpa de tomate com os sacos que tenho debaixo dos pés! Paramos e entra mais um saco, desta vez de carvão, que só tem lugar ao colo da Ana e da Joana. As pessoas falam entre si como se fossem todas da mesma família! É deliciosa esta maneira macua de falar português e de namorar com o idioma luso. Esse idioma que,  aqui com estas pessoas, se fez moçambicano. No falar dos macuas se distinguem África e Portugal. Não me dizem, mas percebo nos olhares a surpresa por estarmos ali com eles! Não devem viajar ao lado de turistas todos os dias… e eu imagino porquê!

Na cidade da Beira passeamos de chopela, uma espécie de tuque-tuque. Subitamente, quando o trânsito nos fez desacelerar, quase me levavam a mochila de arrastão! Felizmente, estava a segura-la com firmeza (sorte 😉). Visitamos a cidade enrugada e envelhecida. Depois, fomos ao aeroporto reaver, finalmente, a mala da Joana. Ao entardecer compramos alguns batiques e “recarregamos as baterias” para a viagem da manhã seguinte 🍌.

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O velho autocarro fez-se à estrada antes do sol nascer. Ainda não eram 8 horas da manhã e já  tresandava a frango assado. Sempre que parávamos vendedores locais corriam para as janelas abertas e acotovelavam-se para vender frutas, vegetais, animais mortos e vivos aos viajantes… Algumas pessoas neste autocarro parecem-me revendedores, compram durante a viagem para venderem pelo dobro ou triplo na cidade… Quando vêm uma oportunidade de negócio gritam a plenos pulmões: –  motorista, pára, quero 300 meticais de cajus; outro diz: – 100 de bananas… é uma animação!

O cheiro a comida intensifica-se e o lixo amontoa-se no corredor a cada km. Mas, até aqui tudo bem! Depois a polícia 🚓 mandou encostar o autocarro e revistou algumas pessoas. A nós, pediram-nos o passaporte… fomos denunciados pela aparência! – Podem seguir; disseram as autoridades. O senhor do banco de trás esclarece:

– Os ex-guerrilheiros da Renamo têm feito emboscadas na estrada e matado algumas pessoas mas as forças do governo andam por aqui para manterem a ordem.

Eu tinha lido algumas noticias sobre os ataques a civis bem como os confrontos entre a Renamo e o governo moçambicano nesta zona do país. Este era um assunto que me preocupava e não fiquei mais descansado quando comecei a ver, pontualmente, tropas armados que ladeavam a estrada em pontos estratégicos como se fossem atiradores! Mas a situação estava prestes a piorar quando, sem aviso, o motor do autocarro entra em paragem cardíaca! Foi preciso esperar 2 horas, no meio do mato numa estrada vazia, para reanimar a máquina.

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Depois de longas horas saiamos, finalmente, em Vilankulos. É lindíssima esta vila costeira. Fomos a banhos, preguiça-mo-nos e sonhamos nas praias absurdamente bonitas e desertas.

Fomos descendo sempre junto à costa atravessando pequenas povoações onde conhecemos pessoas simples mas incríveis. Paramos em Inhambane para mergulhar e passear na vila. Ficamos 2 dias alojados num simpático hostel à frente do mar onde tomámos o pequeno-almoço com os pés na areia quente embalados pela música das ondas em “pano de fundo”!

À medida que vamos descendo o país e nos aproximamos de Maputo, a capital a sul do país, vou percebendo que o imaginário destas pessoas pertencia invariavelmente à terra firme. Apesar de habitarem o litoral, os seus sonhos moravam longe do mar.  Gradualmente, com pequenas conversas, fui descobrindo — aquelas zonas costeiras eram povoadas por gente que chegou recentemente à beira-mar. São agricultores ou, se calhar, pastores que foram sendo empurrados para o litoral, pela guerra ou pela fome ou mesmo ambas! A sua cultura é a da imensidão da savana interior. Ao contrário do que acontece no norte, ou mesmo no centro, de Moçambique, estes povos pescam sem serem pescadores. São camponeses que também colhem no mar. Constroem armadilhas de pesca iguais as que se usam na caça! Impressiona a resiliência e determinação deste povo!

Continuamos então a descer para sul em direcção à cidade e os preços começam a subir. Subitamente, parece que o dinheiro começa a mediar a relação entre as pessoas, entre nós e os outros. Começamos a sentir menos hospitalidade! Nas chapas (carrinhas de transporte) pedem-nos um preço diferente daquele que praticam com os locais! Quando queremos comprar cajus tentam fazer o mesmo e, neste caso em particular, não regateamos, mas só porque são mesmo os melhores do mundo! Parece que, sem aviso, foi implementada uma taxa informal para turistas… Ainda não chegamos à urbe e já temos saudades da simplicidade do mundo rural. É evidente que não quero romantizar esse mundo não urbanizado e defender a pobreza. Eventualmente, ele precisa de enfrentar o confronto com a modernidade. Mas, até aqui tínhamos encontrado relações mais genuínas, mais humanas e menos materiais.

Chegamos a Maputo 14 dias depois. Começamos a comer novamente em restaurantes, fomos ao teatro, assistimos a um espectáculo de jazz, visitamos a cidade, conhecemos vários artistas e artesãos locais e a Ana aproveitou para comprar alguns batiques para oferecer à mãe. É uma metrópole interessante, com vida, dinamismo cultural e muitas outras coisas boas, mas que não conseguem esconder as desigualdades, a pobreza, o lixo e a corrupção. Na última noite em Maputo, saímos do hostel para beber um copo. No regresso fomos abordados pela policia: – Boa noite, a vossa identificação, se faz favor?

Não temos nada aqui connosco. Os passaportes estão já ali no nosso alojamento. Podemos ir buscar, se quiser?

– É ilegal saírem à rua sem documentos. Além do mais, existem alguns conflitos no país, como devem ter visto nas notícias, por isso, nem deveriam andar na rua a esta hora da noite. Como querem resolver isto? Nós ainda não comemos, se quiserem pagar o jantar, tudo bem, se não, vamos ter de ir todos para a esquadra.

Esta não era a nossa primeira viagem em África e, obviamente, não nos deixamos coagir. Mas para a próxima o melhor é andar com o passaporte no bolso…

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Apesar de tudo… Moçambique, enamoraste-me! Até sempre.

Rota (05/2013): Pemba, Nacala, Ilha de Moçambique, Nampula, Quelimane, Beira, Vilankulos, Inhambane, Maputo.

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4 Comments Add yours

  1. De cortar a respiração….e no meu caso muita curiosidade em conhecer mais um país Africano 😉

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    1. adlribas diz:

      África é incrível! Moçambique é lindo 😉

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  2. Adoro o seu blog, e também gosto muito do seu tipo de relato; muito mais do que apenas dicas..valoriza a experiência! Parabéns! PS: ao ler esse post, minha vontade de conhecer os países africanos aumentou ainda mais. 😉

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    1. adlribas diz:

      Obrigado Kessia, eu tento descrever a beleza em África mas não consigo, é um continente mágico e indescritível

      Liked by 1 person

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