Moçambique de lés a lés. (1ª parte)

Moçambique de lés a lés, do norte ao sul, por terra e em 15 dias.

Descolamos do aeroporto de Luanda, fizemos escala em Maputo e aterramos em Pemba, a capital portuária da província do Cabo Delgado a norte do país. Chegamos nós, as nossas malas menos a da Joana!

Pemba, é uma capciosa armadilha. A beleza natural deslumbra e amarrara a este lugar. Foi como se tivéssemos caído numa ratoeira da qual não queríamos sair.

Na padaria local preferem que eu fale Emakhuwa, a língua materna da maioria da população desta província! – Só estou de passagem e que não tive tempo de aprender; disse eu. Um deles percebe português porque foi há escola  (a língua Portuguesa é a língua oficial e de alfabetização) e ensina-me a dizer “bom dia”. A partir daí, com uma única palavra, foi muito mais fácil chegar ao coração das pessoas.

De Pemba para Nacala viajamos no autocarro da transportadora Maning Nice 🚎. Foi uma viagem bizarra mas nada nos preparou para o que estava prestes a acontecer… Em Nacala, subimos para a parte de trás de uma carrinha de caixa aberta. A carrinha esperou até encher. As pessoas subiram até não caber mais ninguém e, depois disso, continuaram a subir! Eu já não conseguia por os pés no chão e pergunto se não havia outra opção mais confortável e segura. Um senhor aponta para um mini-autocarro que se aproxima parando ao nosso lado! A porta abre e o cobrador sai a fumar envolto numa nuvem de fumo, o motorista com um único gole despeja meia garrafa de cerveja, a musica aos berros foge pelas janelas sem vidros e o fumo negro cuspido pelo tubo de escape misturasse com o pó para pincelar a velha carcaça  com uma cor podre! A escolha foi fácil! Seguimos, esmagados, na carrinha de caixa aberta que só parava para deixar sair 1 a 2 pessoas e deixar entrar mais 3 ou 4… Foi uma excelente forma de mergulhar na cultura local.

Chegamos à ilha ao fim da tarde 🏝. Durante a estranha mas interessante viagem conhecemos uma senhora com uma filha pequena que nos alugou um quarto na casa dela. Antes do anoitecer demos uma volta à ilha que parece não estar habituada a ver estranhos! Quando passamos saúdam-nos mas não nos dedicam muita atenção, com excepção das crianças que querem saber de onde somos. Um deles quer ser guia turístico e começa imediatamente a praticar… conta-nos a historia dos navegadores portugueses que por ali passaram, fala-nos das construções coloniais ali presentes, como o Palácio de São Paulo, o forte de São Sebastião, a casa do governador com um museu e a capela da Nossa Senhora de Baluarte. No meio disto tudo ainda nos tenta vender umas moedas que supostamente pertenceram aos comerciantes portugueses que ali passaram 😉! Um deles pergunta-nos onde estamos a dormir e quando a Ana diz o nome da Senhora os miúdos ficam muito sérios e calados! Depois um diz: – essa senhora costuma roubar os hospedes que leva para lá! Corremos para casa 🏃🏻, a Joana também mas só por solidariedade porque não tinha nada para ser roubado. Felizmente, estava tudo em ordem…

A noite acordou os seres, que habitavam o tecto do quarto, sem que nós suspeitássemos. À décima corrida de ratos, cansados da viagem, caímos no sono.

Saímos cedo para visitar a ilha. Passeamos pelas ruas estreitas. As paredes caiadas multiplicam a luz do sol! A ilha ainda hoje continua dividida em duas partes, a zona norte, mais desenvolvida onde moram as pessoas mais ricas e onde em tempos moravam os colonos e a zona sul com barracas onde moram os pobres e onde antigamente moravam os serviçais! Muitas casas estão ocupadas mas parecem desabitadas, despidas de vida e sem manutenção como se ainda hoje os moradores não as possuíssem. As vivendas murcham e o ar salgado da maresia é um carcomedor de paredes.

Fomos à praia ver as mulheres e as crianças que apanham invertebrados. Aproxima-mo-nos para vermos os bichos que encontram e colectam. As crianças abrem logo em concha as mãos. Só para mostrarem como se faz, sugaram logo ali uns poucos!

Aqui, o mar parece não fazer ondas. Espreguiça-se e dilata o peito, parece estar em paz e de bem consigo mesmo. As aguas são azuladas e terminam em praias de areia tão branca que até cegam ao sol. “Mas belezas nem sempre são riquezas.” Estas águas cristalinas são águas pobres. E os pescadores queixaram-se: – a beleza conforta os olhos mas não alimenta.

Neste pedaço de terra encontramos a desordem quieta, um paraíso adormecido como se tudo estivesse a espera de um re-princípio.

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Continua…

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6 Comments Add yours

  1. Aline Kamiji diz:

    Wow! Deu vontade de conhecer esse local, por um momento até senti o cheiro da água salgada. Parabéns pela forma como você escreveu esse post, ficou incrível! Vou ler a segunda parte 🙂

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  2. Eu melhor que ninguém sei como está sendo vossa experiência!! Pessoas muito boas e lugares incríveis! 😀

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    1. adlribas diz:

      Sim, Moçambique é brutal. A nossa viagem foi em 2013. Como criei o meu blog à pouco tempo só estou a escrever o post agora… Obrigado pelo comentário 😉

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  3. Uau!! Belas fotos, e sem falar da experiência maravilhosa que deve ser. 😉

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    1. adlribas diz:

      Sim, foi uma viagem muito marcante. Adorei… Obrigado 🙂

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