Na rota do Trópico de Capricórnio (2ª parte)

Acordar nunca foi tão fácil! Por norma, despertávamos com bom humor sem causa aparente, euforia espontânea e cheios de vida sequestrados por um entusiasmo refrescante… Aparentemente acordar na natureza com o nascer do sol provoca este tipo de efeitos secundários! Sempre achamos que esta viagem iria ser fisicamente desgastante mas não, pelo contrário, estávamos cada vez mais frescos e revigorados!

Na fronteira, carimbamos o passaporte, pagamos o visto, os boletins de vacinas foram verificados porque a vacina da febre amarela é obrigatória. Como medida profiláctica, para evitar a transmissão de doenças, o nosso stock de comida foi revistado mas seguiu viagem. O estômago da Ana, que era dos mais impacientes, rosnou de contentamento!

O Botsuana deslumbra e surpreende logo à entrada… é lindíssimo! Mas o nosso deslumbramento era tal que fomos surpreendidos por dois policias pachorrentos que saíram da sombra de uma árvore com o radar na mão.

-Os amigos acabam de cometer uma contraordenação. Excederam o limite máximo de velocidade dentro de uma localidade em 10 km/h. Têm de pagar já e em dinheiro vivo.

-Mas isto não e uma localidade Sr. Polícia; – disse eu, e depois calei-me que é das poucas coisas para as quais tenho verdadeiro talento.

Pagamos em pulas, moeda oficial do Botsuana e, seguimos de pestana mais aberta. A Isabel olhou pela janela e murmurou: – Oh sorte! onde é que raio estão os suricatas!

Mas mesmo antes de chegarmos ao nosso próximo destino, o Delta do Okavango, já estávamos maravilhados e mimados pela quantidade e diversidade de hóspedes marotos e selvagens que apareciam só para nos fazer afrouxar o pé do acelerador. A Isabel, a Joana e a Ana queriam fotografálos a todos e eu, que não tenho habilitações sequer para servir de espantalho num campo de milho, não quis fazer de emplastro para não ofuscar a graciosidade das girafas e dos elefantes com a minha presença majestosa!

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O dia no Moremi game reserve no Delta do Okavango foi cheio de boas surpresas. A maior parte das pessoas aluga um jipe com guia incluído no parque. Nós conduzimos o nosso 4×4 mas andamos sempre no encalço de um grupo de turistas conduzido por um guia experiente. Avistamos elefantes africanos enormes, girafas que pareciam  torres, zebras atléticas e esbeltas, hipopótamos pachorrentos, varias espécies de antílopes torneados e aves de todas as cores. Só não vimos os místicos suricatas, o que não augura nada de bom! Atenção, nenhum de nós é supersticioso. Na despedida ao Moremi, paramos para fotografar o pôr-do-sol e quando voltamos ao carro este não arrancou! – O “adeus” é sempre difícil; – disse a Isabel. Enfeitiçado pela magia do parque ou rendido ao hipnotizante pôr-do-sol o nosso veiculo 4×4 recusava abalar. Enquanto o sol se despede no horizonte os bichinhos mais ferozes e esfomeados tomam conta da savana! O tempo corria contra nós! Até que um grupo simpático de turistas sul-africanos  se ofereceram para nos rebocar até Maun. Foi a aventura mais perigosa de todas, sem direção assistida, praticamente sem travões, sem buzina, sem AC e sem água para beber, serpenteamos curvas e buracos numa estrada ladeada por animais selvagens e depois perto das povoações domésticos também. Foi um daqueles dias… espetacular!

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No ultimo dia em Maun também acordamos cedo mas mais uma vez o carro estava relutante e não arrancou! – A Isabel tem razão, o “adeus” é sempre a parte mais difícil! – disse a Joana. Solicitamos um mecânico que teimou em aparecer e, no desespero, quando um transeunte, bom samaritano, aparece e se prontifica a ajudar pensamos, imediatamente, que se tratava do nosso mecânico. Depois do Goowill perder uma boa meia hora e de lhe termos gasto o saldo do telemóvel, para uma carrinha com dois homens que dizem estar ao serviço da nossa empresa de aluguer de carros…

-Oh Goodwill, se estes são os mecânicos, quem és tu então?

-Eu trabalhei neste lodge uns tempos e estou aqui hoje para reclamar o pagamento de um ordenado em atraso mas como percebo um pouco de mecânica quis ajudar.

-Ah bom! Então obrigado e desculpa pelo inconveniente! Somos uns totós. O carro entretanto pegou mas tivemos de passar na oficina em Maun.

-Goowill, queres boleia até a cidade?

-Sim, agradeço muito.

Tomamos o pequeno almoço num café perto da oficina e depois batemos a Estrada até ao Chove.

O parque nacional do Chove oferece um dos melhores safaris de barco de África, por isso, é muito popular e dos mais visitados no Botsuana. Contudo a Ana, desta vez, não precisou de acotovelar ninguém para tirar fotografias. Deixamos o nosso amaldiçoado 4×4 em terra e embarcamos num passeio no rio Chove. Numerosas famílias de elefantes indiferentes à nossa passagem escapam ao calor e saciam a sede nestas águas, hipopótamos balofos abrem preguiçosamente enormes bocas exibindo dentes temíveis, na margem crocodilos apanham banhos de sol enquanto os temperamentais búfalos africanos espreitam uma oportunidade para se refrescarem.

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A última noite no Chove foi, também, passada à volta de um fogueira embalados pela música que chegava da selva e com o calor do fogo partilhamos as histórias e as fotografias com um casal de fisiologistas norte americano que também faziam férias ali mas trabalhavam na capital do pais, Gaborone.

Até às assustadoras, barulhentas, húmidas e impressionantes cataratas Vitória foi um instante. Chegamos “à papo seco” sem impermeáveis e ficamos ensopados em água. Eu atrevi-me a fazer bungee jumping saltando da majestosa ponte a 111 metros sobre o poderoso rio Zambezi com as cataratas Vitória atrás em pano de fundo, a Joana fez slide da Zâmbia até ao Zimbabué suspensa num cabo de aço ao longo da impressionante ponte enquanto a Ana e a Isabel captavam a nossa adrenalina nas câmaras. Compramos algum artesanato local, bebemos uma cerveja fresca  e partimos ainda com as pernas trémulas pela overdose de emoção (a cerveja não era assim tão forte!).IMG_2184

vitoria falls

photography – all rights reserved – Ana Rocha

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4 Comments Add yours

  1. Ribas diz:

    porquê CAPRICÓRNIO –

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    1. adlribas diz:

      porque o trópico de capricórnio é um dos cinco principais círculos de latitude que marcam mapas da Terra (como a linha do equador, por exemplo). Esta linha geográfica imaginária localizada ao sul do equador circunda o mundo e na África a sua latitude atravessa a Namíbia, o Botsuana, etc…

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    1. adlribas diz:

      😉 Aquino é tão bonito que até eu consigo fotografar

      Liked by 1 person

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