Na rota do trópico de Capricórnio (1ª parte)

Em Maio de 2013 descolamos de Benguela, Angola, e aterramos os quatro em Windhoek, na Namíbia, com a intenção de percorrer quase 5000 km, em 15 dias, pelos desertos e savanas da África Meridional.

Alugar um carro 4×4 era o nosso primeiro plano e, surpreendentemente, foi também a nossa primeira alhada assim que aterramos em Windhoek. Sabíamos que a nossa aventura ia ser tão empolgante como dura afinal à nossa frente tínhamos areias traiçoeiras, temperaturas extremas e alguns dos mais ferozes bichinhos do mundo. Mas não foi isso que nos tramou em primeira instancia. Mesmo antes de chegarmos a empresa de aluguer de carros, primeiro foram uns pequenos degraus, a Isabel tropeça e cai, a Ana que caminhava na sua sombra solta uma risada e é imediatamente vítima do karma ou da imprudência porque cai precisamente no mesmo degrau. Eu e a Joana ficamos preocupados mas não conseguimos conter o riso e por isso fomos acusados de pouca prontidão no auxilio. Eram as nossas primeiras férias em África e começavam assim, aos tropeções e com boa disposição. A segurança e o conforto tinham ocupado grande parte do nosso planeamento para esta viagem, no entanto, o plano começava a fraquejar com os primeiros passos! Depois de recompostos, imprudentemente otimistas, entramos confiantes na oficina e num ápice percebemos que estávamos atolados mesmo antes de pisarmos as areias do deserto mais antigo do mundo!

Os cartões virtuais associados aos cartões de crédito ou debito, tais como o MBnet ou Paypal não funcionam na Namíbia! Nenhuma empresa aceita o pagamento em dinheiro; disseram-nos! O facto de estarmos todos na casa dos vintes e termos tirado a carta pelo lado direito da estrada também não abonou a nosso favor. Contra todas as expectativas e, depois de termos apresentado todas as opções possíveis, fomos inesperadamente bafejados por um surto de sorte e boa vontade,. respiramos de alívio e pela primeira vez sentimos o ar quente e seco do deserto a entrar nas nossas narinas dilatadas pelo calor.

-Façam boa viagem e fiquem atentos à estrada. Avistar um suricata da sorte. – Gritaram-nos do escritório enquanto nos acenavam com a mão.

Conduzir um carro 4×4 equipado com duas tendas de campismo sobre o tejadilho para 4 pessoas pelo lado esquerdo da estrada foi fácil, difícil foi, perceber como funcionam os semáforos em Windhoek!

Antes de nos perdermos na estrada, prudentemente, compramos combustível, comida e água. Tivemos também o privilegio de conhecer os pastores seminómades himba, as mulheres Herero e os seus exóticos vestidos. Estas pessoas únicas não sobrevivem apenas – elas vivem com um sorriso raro! Infelizmente não restam muitas. No inicio do séc. XX os alemães ordenaram o extermínio dos indígenas Herero, assim que eram avistados eram abatidos. Tratou-se de uma limpeza étnica, uma espécie de ensaio antes do genocídio dos judeus pelos nazis na europa. O massacre do povo Herero foi o primeiro genocídio do séc. XX, cerca de 80.000 pessoas perderam a vida.

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Itinerário: Windhoek, Maun, Delta do Okavango, Moremi Game Reserve, Chove, Cataratas Vitória, Rundu, Solitaire, Sossusvlei, Dead Vlei e Windhoek.

A Namíbia e um país com poucas pessoas e muitos animais selvagens indiferentes às regras de transito, por isso, circulamos devagar e muitas vezes em silencio extasiados pela beleza da paisagem. Paramos inúmeras vezes para esfregar os olhos quando paisagens desérticas e selvas lotadas de animais insistiam em cruzar o nosso caminho. Avistamos e fotografamos animais, pequenas povoações com pessoas autenticas e genuínas que vivem de forma muito simples. Cedo percebemos que a Namíbia mais rural e simples, mais real e verdadeira, escondida atrás da fachada do turismo transporta problemas muito antigos! As terras menos férteis pertencem às pessoas com a pele mais escura e as mais férteis às pessoas com menos melanina!  Há também um gigante a mudar a cara deste pais e de toda a África, a China, a sua presença é visível praticamente em todo o lado.

“É o desenvolvimento e a globalização” – dizem!

Antes de cruzarmos a fronteira com o Botsuana montamos a tenda sob o olhar atento das estrelas mais brilhantes do H.S. e certamente de alguns bichinhos marotos não fosse estarmos nós num dos melhores santuários de fauna Africana por excelência.

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photography – all rights reserved – Ana Rocha

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4 Comments Add yours

  1. Gostaria de fazer esse roteiro em 2021. E está super na minha lista mochilão pela África. Obrigada pelas informações.

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    1. adlribas diz:

      De nada! É um país incrível! boas viagens 😉

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  2. Ainda não li as outras partes do post, mas, vocês tiveram uma lição de vida baseada na biodiverdidade e na experiências de ter o encontro com tantas culturas e espaços geográficos historicamente construídos caracterizados pela barbárie colonialista. Legal

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    1. adlribas diz:

      Sim, foi uma grande viagem a todos os niveis… Obrigado pelo teu tempo 😉

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